27/11/2009 09h50
Preparando o futuro
O que proponho neste momento não é dizer do meu dia a dia, pois seria cansativo ao extremo, mas sim uma valiosa etapa da minha existência. Ouso dizer que talvés a mais importante para a minha jornada pessoal. Escolhas que realmente nos conduzem a verdadeiras mudanças de rumo, de ver a vida, de fazer a difereça. Será que conseguí? Não estaria, por ventura, querendo alçar voo muito alto??
Quando mais jovem o que mais me atormentava e causava medo e insegurança era a idade. A idade em que as pessoas por volta dos 50 anos, naquela época, reclamavam de tudo, diziam que era a “idade do condor”, que era a velhice chegando, as mulheres se tornando desleixadas, gordas, envelhecidas, infelizes, conformadas com a vida já passada e a já terrível incógnita para o futuro enfim, confesso que só de lembrar que talvez um dia eu tivesse essa idade me deixava muito angustiada, deprimida mesmo. Tentava, sem grandes resultados, não pensar no assunto. Mas a natureza atua todos os dias, e eu já começava a sentir-me assim como aquelas mulheres. Três filhas maravilhosas e extremamente amorosas. Saindo de um casamento que há muito estava em crise. Era assim que me sentia naquela distante época.
Naquele momento contava com aproximadamente 34 anos. Pressentia que aquele tormento já não estava tão longe, pelo contrário, estava se aproximando. Foi mais ou menos na ocasião que limpara o meu baú e consegui lentamente reescrever alguns capítulos do meu livro da vida. E essa limpeza já estava trazendo resultados, pois naquele momento estava imbuída de bons pensamentos, de esperança, de fé e aberta para o novo. Num belo dia, daqueles em que o sol brilha, os passarinhos cantam, as flores exalam perfumes, por incrível que possa ser, senti-me conectada com a natureza. Completamente integrada, ligada, unificada com ela e então pensei – “Porque terei que viver o que as outras pessoas viveram, experimentaram, vivenciaram? Eu quero viver a minha vida do jeito que havia imaginado quando criança. Eu desejo atuar no palco da vida, seja sorrindo ou chorando, e não na platéia, onde as pessoas apenas sentem o que os outros impõe e no exato momento em que atuam". Não era aquilo que almejava para mim. Naquele momento tive a consciência de que cada ser humano chega a qualquer idade conforme viveram, conforme se comportaram diante das dificuldades, das tristezas e experiências vividas e também das alegrias, enfim, ensaios inerentes ao ser humano, das mágoas trazidas e aumentadas ao longo dos anos, então decidi – “Comigo será diferente. Vou começar a viver de tal forma que quando chegar os 50 anos eu esteja inteira, completa por inteiro, feliz pelas dificuldades dribladas, alegre com as tristezas vencidas. E quanto às experiências adquiridas sentir-me-ei realizada porque com certeza com elas muito aprendera”. Até porque, experiências vividas são muito mais produtivas e entendidas do que as aprendidas através dos tempos pelas experiências que os outros nos permitem ter conhecimento. Experiências sem o sentimento verdadeiro, sem o aprendizado condizente que poderá trazer aos mais atentos um conhecimento verdadeiro.
Algum tempo depois, conversando com uma amiga, lhe confidenciei minha necessidade de mudar meu comportamento diante da sociedade, diante da vida, enfim, diante de mim mesma. Tinha de mudar o rumo de minha vida, mas não sabia como fazer, por onde começar a nova e tão almejada virada. E foi assim, num bate papo que surgiu a idéia. Minha amiga disse-me assim – “Quanto a tua idade nada se pode fazer. Quanto a tua falta de experiência para um possível trabalho também nada a fazer. Mas por outro lado, para voltar a estudar a idade é o que menos conta. É só querer”.
E eu queria. Senti que aquela era a saída para as minhas angústias. No outro dia, uma segunda-feira de manhã, já estava matriculada num Supletivo perto de casa. Fiz o segundo grau em um ano. Iniciei na escola Luterana e concluí no Universitário. Senti que havia dado o primeiro passo. A primeira grande vitória para a minha grande virada. Sempre ouvi dizer que o primeiro passo é o mais difícil. Não é. O mais árduo é se ter a consciência de qual será e como se dará o primeiro passo, depois sim, tudo se torna mais fácil. No momento em que se toma uma decisão, o problema já está praticamente resolvido. O resto é só questão de tempo, de paciência, de tolerância e de firmeza no pensamento.
Naquela mesma ocasião, através de outra amiga, já falecida, fui convidada a participar de programas de auto-ajuda. Passei por vários destes programas, que muito me ajudaram. Com esses cursos aprendi a me conhecer melhor, entender os motivos disso e daquilo, entender como nos magoamos com facilidade e principalmente, como magoamos facilmente a quem amamos. Essa consciência foi a mais sofrida, porque não é o que queremos, não é o que pretendemos, mas enfim, assim somos. Ter a consciência de que magoamos alguém é muito dolorido, principalmente porque nem sempre é o que queremos fazer. É quase involuntário. É um impulso descontrolado, quase sempre sem sentimento, sem pensar, e o que é pior, sem se dar conta das conseqüências das nossas atitudes impulsivas, muitas vezes movidas pela nossa incoerência, nosso estado de ânimo no momento, que atinge e causa, quase sempre, horas sofridas para alguém, Mas acordar nossa consciência é tão expressiva que se torana a experiência mais gratificante que alguém pode experimentar. É como se de repente fôssemos outra pessoa. E foi essa descoberta, da outra pessoa que existe dentro de mim, que trouxe a certeza de que venceria todas e quaisquer dificuldades que por ventura surgissem na minha vida.
Todavia, mesmo que tenhamos a maior vontade do mundo, muitas vezes não acontece como planejamos. Alguma coisa que não identificamos está em nossa volta. Por quê? Não sabemos. Mas precisamos ir em frente. No entanto, por incrível que pareça são nesses momentos que precisamos ser fortes e firmes em nossos objetivos. Ter perseverança e equilíbrio para atingir o resultado almejado. E principalmente, tentar entender o que uma situação não esperada quer nos dizer. O que o mundo invisível espiritual nos alerta. Quer que aprendamos. Sim, porque tudo tem um causa, uma finalidade. Seja aprender, resgatar algo, ou talvez não seja aquele o momento apropriado, ou aquela escolha no futuro não nos traria a felicidade pretendida. Se dirigirmos nossos pensamentos e convicções nesse sentido tudo se transforma. Tudo fica mais claro. A situação negativa se transforma em expectativa. Mas o que virá a seguir?
Mas derrotas também chegam. A primeira aconteceu quando decidi pelo curso de psicologia. Após os exames iniciais para poder inscrever-me para o vestibular veio o resultado – “Você está mais para divã do que para psicóloga”. Recordo que naquela ocasião eu tinha certeza absoluta de que o caminho era aquele. Nada poderia dar errado. Inclusive todas as pessoas do meu relacionamento na época tinham a mesma opinião. Então por quê? Foi uma grande decepção. A primeira derrota atravessando meus objetivos. Num primeiro momento foi um baque muito grande. Quase intransponível. Mas como tudo tem um significado em nossas vidas pensei – “Bom, pensando bem não me imagino parada ouvindo os lamentos e angústias dos outros e na realidade poder ajudar muito pouco”. Pensando um pouco mais senti que a minha certeza já diminuíra um pouquinho. Será? Fiquei um bom tempo analisando, questionando tudo novamente. Queria descobrir o que a vida estava tentando me dizer que eu não estava compreendendo. As minhas inseguranças e medos ficaram em alerta. Aliás, fiquei em alerta por inteiro. O que havia acontecido era muito revelador e precisava descobrir o que estava oculto em mim que não conseguia descobrir, perceber. Era como se estivesse em um quarto muito escuro e minha visão não conseguisse ultrapassar aquele breu. Mas quando estamos já há algum tempo na escuridão, aos poucos percebemos alguns traços, definições importantes. Se prestarmos mais atenção naquele escuro, veremos que é apenas uma leve neblina, membrana em nosso interior. Aí sim a luz resplandece em nosso ser. Principalmente quando estamos abertos para o novo. Mas por mais que tentasse, por alguns dias é claro, fiquei deprimida, triste, sentindo-me vencida. No entanto, talvez algo invisível e de tão delicado, incompreensível, a reação e o brilho tomaram conta de meu ser. Veio em minha mente uma esperança tão grande, uma fé tão maravilhosa que me levaram aos anos em que os sonhos nos levam às alturas, onde temos a certeza de que tudo se pode, basta querer e ir em frente. E mais ainda, confirmou o que eu já sabia. Dependia apenas de mim. Toda a minha história presente e futura dependia apenas de mim. Ora, se não estou em condições de estudar psicologia outra idéia haveria de surgir. Sentia que tinha capacidade. Sentia que tinha chances já que havia me proposto a mudar o rumo de minha vida. Mudar a minha biografia.
Quando chegou a época do vestibular pensei em estudar Direito. Quanto a esta idéia minha filha mais nova disse – “Mãe, tu sempre defendes e dás tantos conselhos às pessoas, e faz isto de graça, porque não se especializar para tal?”. No mesmo dia inscrevi-me no vestibular. Alcancei boas notas, mas não o suficiente para ser chamada. Nova decepção? Desta vez não. Porque senti que esta foi a maior alavanca que um ser humano pode ter, sentir, perceber, mesmo que tenuamente o empurrão que me levaria a um ponto em que nada poderia me alcançar. Quando digo alcançar, digo no sentido de proteção contra as energias negativas. É interessante observar que são nessas situações, nesse tipo de acontecimento é que aprendemos o que os outros pensam realmente sobre nós. Grande engodo. Como nos enganamos. Pela frente nos dão a maior força. Mas por trás é que são elas. Frases que ouvi na ocasião da reprovação no vestibular: “Estava na cara que tu não passarias, não te esquece que fizestes um simples supletivo”; “Isso eu já sabia”; “Não é melhor tu ires trabalhar?”; “O estudo é para ter uma desculpa para não trabalhar”. Literalmente me chamaram de à toa. Mas neste meio todo o único que me deu a maior força foi meu irmão mais novo.
Mas não desisti com os pensamentos negativos que corriam soltos em torno de mim. Soubera por terceiros, que havia um curso no centro de Porto Alegre que se tornara muito interessante, importante mesmo para mim naquela ocasião. Averigüei e me inscrevi. O curso preparava para o concurso de Oficial de Justiça. Resultado: quando novamente tentei o vestibular obtive a vitória tão almejada.Ingressei nas Faculdades Integradas Ritter do Reis, hoje UNIRRITER, aqui perto, na cidade de Canoas. Talvez tenha sido a minha segunda maior vitória, pois dela viriam outras.
Estava finalmente cursando uma faculdade, isso já com 39 anos de idade. Convivi com várias pessoas diferentes. Com ideais que nem sempre eu entendia ou aceitava. Mas isso também fazia parte da minha mudança. Conviver e aprender com pessoas de pensamentos e ideologias diferentes das minhas, compreendê-las e finalmente aceitá-las. Aproveitei cada minuto, aprendi, vivenciei tudo o que poderia acontecer dentro de 04 paredes juntamente com 49 colegas. Todos ávidos em conhecimentos e transformações. Confesso que muitas vezes me perguntava o que estava fazendo ali. Em várias ocasiões sentia-me deslocada, pois estava percorrendo um caminho totalmente desconhecido para mim. Mas era uma vida nova, era a minha virada, a nova jornada que tanto havia batalhado. Teria que me inserir de corpo e principalmente de alma na minha nova realidade. Era completamente diferente de tudo que eu havia vivido, experimentado. Mas isso não me travava, pelo contrário, me incentivava a continuar. Estava vencendo dia a dia, mês a mês e finalmente, ano a ano. Lembro-me que no último semestre, propus-me outra batalha, a de formar-me já com a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, pois somente com a carteira em mãos poderia advogar de imediato. O que fiz? Outro curso, juntamente com a faculdade. De manhã Ritter, à tarde estágio e à noite curso para a prova da OAB. E no meio desse tempo minhas filhas e tantos outros compromissos. Aí sim, já me sentia pronta para a prova, onde receberia a licença para advogar. Passei.
Em 07 de agosto de 1997 às 20:00 começou a minha formatura. Naquele exato momento senti que havia conseguido ultrapassar, com muita bravura e coragem todos os meus medos, inseguranças e fraquezas. Realmente comprovei que tudo dependia do primeiro passo. Da vontade de seguir em frente mesmo que para isso deveria pôr minha vida em cheque-mate. Sei que haviam outros formandos, é lógico, não poderia ser diferente. Mas para mim tinha uma outra conotação, eu estava com 43 anos, Bacharel em Direito e com a carteira da OAB nas mãos apta para advogar. O momento mais esperado foi quando a diretora da Instituição pediu aos bachareis que haviam passado no Exame da Ordem levantassem para fazer o Juramento do Advogado. Eu ali, em pé, com aquela roupa preta em cetim, maravilhosa, com babador em renda branca e para completar uma faixa vermelha na cintura. O vermelho rubi é a cor representativa do Direito. Enquanto fazia o juramento mil pensamentos percebi em minha mente. Acredito que por mais que goste de escrever ainda não conheci as palavras que definiriam aquele momento. Se estivesse falando sobre sexo diaria que eram orgasmos multiplos... A força que entrava em minhas veias era forte e vigorosa. Agora sim estava competente e pronta para realmente recomeçar uma nova vida. A idade já não mais pesava, pelo contrário. A diferença entre eu e alguns de meus colegas bem mais novos era evidente. A experiência vivida se souber observá-la, nos trará a paciência, a perspicácia e a tolerância de que necessitamos, e principalmente, nos traz a sabedoria. Pode até parecer estranho, mas isso faz diferença. E que diferença.
Já atuando na área do direito continuei a estudar. Fiz Pós Graduação em Direito Civil e Processual Civil e lá fiz outros tantos amigos. Amigos que continuam até os dias de hoje. Encontramos-nos pouco, é verdade, mas sempre que precisamos uns dos outros, lá estamos nós presentes, prontos para nos acolitar.
Atualmente, atuando como profissional do Direito sinto-me plena, feliz com minhas conquistas, feliz com a oportunidade que me permiti ter em reconstruir um futuro exatamente como queria, como imaginava e sonhava viver. Casei-me pela segunda vez. Sinto-me extremamente realizada. Meu atual marido é totalmente diferente do primeiro. É carinhoso, amigo, companheiro, amante, alegre, brincalhão e para completar, espírita como eu. Entendemo-nos perfeitamente bem quando estamos juntos. A sua companhia é extremamente agradável. Aposentou-se e atualmente faz faculdade de Direito que por incrível coincidência, ou não, também é na Ritter do Reis onde eu havia estudado. Como bem se observa, além de tudo, também será meu colega de profissão.
O que posso deixar como exemplo para os meus descendentes é que fazendo essa limpeza em nosso velho e esquecido baú sobrará lugar para novas oportunidades, novas experiências e com isso poder refazer os capítulos de nosso livro particular e recomeçar, com garra e vontade. Aproveite bem, pois é um momento somente seu. Mas tudo o que vier a fazer faça-o com muita verdade, amor, muita força interior e principalmente com muita fé em Nosso Pai Maior. E para tornar tudo ainda mais espetacular faça a todo o raiar de novo dia, a toda nova manhã que virá, brindes às novas oportunidades e possibilidades que surgirão. Que a paz esteja em seus corações.
Publicado por Roseli Hubler em 27/11/2009 às 09h50
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